terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O que é que o Rio tem?

Tantos dias de férias no Rio me trazem experiências memoráveis...

- Em que outro lugar eu entraria pra fazer uma unha e sairia com uma nova melhor amiga manicure que me chama pra ir ao ensaio da escola de samba, me vende “a preço de comunidade” uma fantasia para o desfile da Sapucaí e ainda me oferece aulas de samba?

- Em que outro lugar você vai à banca de jornal e é atendida por um homem que não tem noção de quanto custa o chiclete que vende? Em que lugar do mundo você descobre que o desinformado homem da banca não passa de um porteiro que em pleno expediente se dispôs a assumir o controle da banca em frente ao prédio que trabalha só pra quebrar o galho do seu camarada jornaleiro que precisou fazer uma fezinha na loteria?

- Em que outro lugar do mundo você passa o verão inteiro encontrando um camarada na praia e no bar, com quem fala besteira, toma todas, ri e chora, mas não tem noção do que faz e onde mora?

Definitivamente, se existe um lugar para se descansar a mente, esse lugar é o Rio. E pela quantidade de pessoas que vejo aqui no Bibi Sucos, impecavelmente vestidas-para-correr, trajando camisetas Track&Field ou com a Folha de São Paulo embaixo do braço, é inegável que os paulistanos estão cada vez mais descobrindo os encantos dessa doce vida.

sábado, 19 de novembro de 2011

Segredos de Campinas

Há muito, em São Paulo, venho tentando achar um interior com cara de interior.

No meu imaginário, o interior com cara de interior não pode ter prédios.
Interior com cara de interior tem que ter uma praça singela e uma igrejinha.
Interior com cara de interior tem que ter ruas de paralelepípedo ou de terra.
Interior com cara de interior tem que ter velhinhas conversando sentadas na frente do portão.
Interior com cara de interior tem que ter barrigudos tomando cerveja em garrafa em mesas na calçada.
Interior com cara de interior não tem condomínio com seguranças.
Interior com cara de interior não tem chefe de cozinha.
Interior com cara de interior tem um cozinheiro, uma esposa ou uma vovó que seguem receitas de tradição.

E quando eu já havia perdido todas as esperanças de achar esse ideal de interior, eis que encontro um distrito chamado Joaquim Egídio, em algum lugar de Campinas. Justo Campinas, cidade que jamais me despertou esperança de encontrar tão almejado lugar.

Bendita hora que resolvi achar o tal Bar do Marcelino. Após duas horas de confusões com o GPS, que parece não ter entendido o nome da rua, resolvi apelar ao recurso que não falha: a interação humana. (Não sem antes me beneficiar da burrice do equipamento e amolar o meu marido com meu discurso anti gps). Voltando a boa e velha comunicação entre seres da mesma espécie, disquei para o bar e fui atendida pelo próprio Marcelino. Seguindo suas orientações, como em um passe de mágica, atravessamos o mundo real e fizemos uma viagem ao tempo. Ultrapassamos barreiras invisíveis e num piscar de olhos havíamos sido transportados para um autêntico interior com cara de interior.

Foi assim que achei o meu tão sonhado paraíso. E justamente ali fica a casa do Marcelino, que nos presenteia com o melhor da cozinha simples, saborosa e caseira. Quando avistei o bar, percebi o calor logo na entrada: com suas mesinhas de caixote de feira, cheias de gente sorridente, já sabia que ali era "o lugar". E o que dizer do afeto com que Marcelino recebe seus clientes? Sabe aquele calor que a gente acha que se perdeu? Pois ele é preservado por gente como Marcelino. O singelo slogan do bar, resume esse lugar que parece nos abraçar: "Especialidade da casa: você!"



Joaquim Egídio é daqueles lugares que nos tocam, nos emocionam. Demorei muito para encontrá-lo. Uma parada obrigatória para os que precisam reencontrar a paz do interior - da cidade e do seu.

R. Heitor Penteado, 1113
Joaquim Egídio - Campinas
www.bardomarcelino.com.br

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

OÁSIS URBANO

Eu preciso falar de um paraíso. Mas antes, preciso definir o arquiteto Ruy Ohtake. Não gosto do termo polêmico. Eu arriscaria irregular. Se por um lado cria o incrível desenho de meia melancia do Hotel Unique, por outro é capaz de fazer uma gigantesca torre cor de rosa no lado mais bucólico de pinheiros.




Paradoxalmente, a horrenda torre abriga um dos mais belos centros culturais da cidade, o Instituto Tomie Ohtake. Eu batizo o local como um dos melhores shoppings culturais da cidade. Primeiro, porque tem uma livraria daquele gênero em extinção: pequena, aconchegante e com uma excelente seleção de títulos - não só de arte, mas infantis e clássicos (que em geral nossos olhos não alcançam em uma mega loja). É a Livraria Gaudi, que contém o essencial.




O instituto abriga também uma lojinha bem bacana de design, a "It". Além de incríveis caderninhos e "coisinhas" cheios de bossa para escritório, tem uma boa variedade de jóias e bijous com muito charme e design criativo.

O restaurante do instituto é um caso a parte. Não só por ter aquele ar interessante de restaurante cosmopolita, mas porque o cardápio é elaborado nada menos do que a ótima chef Morena Leite, do Capim Santo. Da sua cozinha saem delícias com sotaque baiano e toque moderno que ela domina como ninguém.

Culminando com o mais importante, as exposições, arrisco dizer que nem é preciso você consultar a programação dos cadernos de cultura antes de partir para lá. A seleção do instituto é sempre muito criteriosa - oferece a cada temporada algo relevante e interessante.

Atualmente está em cartaz a exposição "Chaplin e sua imagem". É uma exposição que nos remete a toda a magia do cinema mudo e do inventor do humor com poesia na telas.
Os registros fotográficos dos bastidores dos seus filmes são documentos preciosos. Ao ler os seus pensamentos, é possível perceber que suas ideias não envelhecem - nos permite uma reflexão profunda sobre os nossos tempos.

"Silêncio: que graça universal. Como poucos de nós sabem aproveitá-lo... Talvez porque ele não possa ser comprado." (Charles Chaplin)

Instituto Tomie Ohtake
Av Brigadeiro Faria Lima, 201 - Pinheiros
(entrada pela rua Coropés)
tel: 2245-1900

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Noite Feliz!

Fazendo jus a minha fama de deixar tudo para a última hora, é com enorme prazer que convoco a todos que curtem - ou simplesmente passam por - esse blog para a noite de lançamento do meu querido "Manual de Sobrevivência em São Paulo - um guia para cariocas e simpatizantes" que acontecerá... tchan, tchan, tchan, tchan..... no dia 26/10! Espero vocês, pessoas queridas que estão aí do outro lado da telinha, para comemorarem comigo! Para aumentar o apelo e atratividade da noite, garanto que vale à pena ir lá nem que seja para conhecer a arquitetura do prédio e da loja. É uma arquitetura "verde", tudo pensado para ser ecologicamente correto. Tem planta saindo por todos os buracos, uma loucura! Até lá!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Butantã Moment

A cada dia me encanta mais o Butantã.

Um bairro onde não há um grande shopping de luxo.
Um bairro onde não há mansões de estilo normando.
Um bairro onde não há portões com brasão dourado.

Os grandes luxos do Butantã são:

O incrível campus da USP, com uma área verde que parece não acabar - onde confesso que sonho que meus filhos um dia irão estudar.

O admirável Instituto Butantan, belíssimo, bem preservado e uma prova de que o brasileiro não é simplesmente um povo folclórico, que só é bom na música e no esporte.

A bela casa de concreto do ícone da arquitetura moderna brasileira, Paulo Mendes da Rocha.

A Casa do Bandeirante, onde confesso nunca entrei, mas pelo simples fato de ser uma relíquia bem preservada nessa cidade que tem, como diz Caetano, "a força da grana que ergue e destrói coisas belas", deve ser um lugar exaltado e valorizado.

A escassez de arranha céus, a sensação de se ter um horizonte possível.


Se um carioca, paulistano ou chinês me perguntar sobre o lugar mais aprazível, menos afetado e mais simpático para se ter a casa dos sonhos, esse lugar é o Butantã.

domingo, 25 de setembro de 2011

Uma galinha tem seu valor

Hoje o meu domingo está no top ten dos domingos felizes. Tudo por causa de uma galinha.

É isso mesmo. Resolvi me presentear com uma galinha. Não serei hipócrita em dizer que fiz isso para encher de felicidade a vida da minha família. Em um ímpeto de coragem, assumo que esse ato foi em prol da minha total e irrestrita satisfação em lambuzar meus dedos de gordura, chupar ossinhos saborosos da asinha e me encher de uma sensação indescritível de prazer.

Se você quiser sentir tudo isso e mais um pouco, o endereço do prazer fica logo ali na Vila Madalena, no Galinheiro Grill. Em cinco minutos - sem exagero - preenchi meu buraco existencial. A experiência não é nova. Já fui lá muitas vezes. Mas a experiência de levar a ave terapêutica para casa é inédita. E eu recomendo.

Entrei, pedi uma galinha no balcão, paguei a bagatela de vinte e seis reais com direito a uma farofa, me virei para o balcão em frente e pronto. Lá estava aquela churrasqueira maravilhosa, com aproximadamente vinte ditas cujas mortas e douradas, ardendo em chamas. Pausa para apreciar esse momento de pura emoção. Em segundos, o Seu Fulano (eu sei, uma heresia eu ter esquecido o seu nome), vestido impecavelmente de branco e com a precisão de um cirurgião, faz uma linda coreografia do esquartejamento da galinha. Tá-tá-tá! Pura poesia para meus ouvidos.

O aroma de ervas do tempero deve ter contribuído para aquele estágio da alma que alcancei. Não tenho dúvidas de que atingi o Nirvana.

Mas naquele ambiente de tamanha eficência e rapidez não há como uma pessoa se dar ao luxo de ocupar um mísero espaço no balcão por mais de cinco minutos. Meus segundos finais chegaram. Conferi o Seu Fulano jogar rusticamente os meus tão almejados pedaços de galinha em um indefectível saco transparente e segui rumo ao meu esconderijo.

Com minha habitual competência e voracidade finalizei o meu trabalho. Nem o menor vestígio do crime deixei.


Galinheiro Grill
Rua Inácio Pereira da Rocha, 231 – Esquina com a Fradique Coutinho
3816-3208 / 3816-6023 / 3796-9264

sábado, 17 de setembro de 2011

Independência, suor e reflexão

7 de setembro de 2011. Vai ficar na memória. Resolvi passar da maneira mais paulistana possível, que é correndo. Sim, porque 9 em cada 10 pessoas desse meu mundinho pequeno que gira em torno do Morumbi, Itaim, Jardins e adjacências, parecem obstinadas com esse negócio de corrida. No meu caso, é uma questão de consciência. Ou punição, pelas frequentes orgias alimentares.

Não só corri, como participei de uma prova no Parque da Independência. A ideia desse post não é falar dos meus dotes atléticos, até porque eu passei cada um dos 10 km tentando ultrapassar um japonês muito gordinho e (confesso!) muito humilhada com os vovozinhos que me ultrapassavam com enorme facilidade.

Tirando esses desgostos, o sentimento que dominou a minha manhã de 7 de setembro foi o encantamento. O impacto ao me daparar com o Museu do Ipiranga, no coração do parque, e seu deslumbrante jardim, jamais sairão da minha memória. Após passar por tantas regiões cinzentas, feias e decadentes, não imaginei encontrar tamanha beleza reinando naquele emblemático lugar. Direto do pesadelo urbano para o cenário de um romance francês.



Assim, durante todo o percurso da corrida, tentava entender como o entorno daquela maravilha de símbolo da cidade, aquele exemplar da mais bela arquitetura e natureza, ficou tão decadente. Não há como evitar a tristeza de ver no que essa cidade se transformou. E não há como não pensar que existe algo de errado na lógica da formação das cidades.

Passando para esse clima de reflexão, a melhor maneira de se terminar esse texto é com as opiniões contundentes, filosóficas, poéticas e interessantes daquele que considero o maior de todos os pensadores vivos desse nosso país, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, hoje com oitenta e três anos.

Sobre São Paulo: "monumental, contraditória e com aspectos de desastre".

Sobre o conceito de cidade: "A cidade existe na mente do homem como um desejo. Se você imaginá-la como um espaço de pura especulação e negócio, ela jamais poderá ser bela."

Sobre a feiura da cidade: "Eu tenho a impressão de que antes da cidade ficar feia, são as pessoas que enfeiam"

Sobre o morar na cidade: "Os donos do dinheiro já abandonaram a cidade. Que ela seja, então, do povo. Eu tenho a impressão de que o futuro do mundo será feito pelos que vêm de baixo. Aqueles que compreendem as virtudes da cidade."

Sobre os condomínios privados: "E essa rodovia que foi projetada para transportar mercadorias fica repleta de idiotas que dizem que moram num condomínio privado. Privado do quê? O pessoal não presta atenção nem nas palavras porque se o condomínio é privado, está se privando de alguma coisa. Não estou fazendo um jogo de palavras, é privado porque é privativo, pertence só a eles. Mas também os priva de muita coisa. Algo como o estudante de medicina poder se apaixonar pela bailarina. Isso não acontece em condomínio fechado."

Não há como se pensar que Paulo Mendes da Rocha seja simplesmente um arquiteto. Acho comovente vê-lo refletir sobre como a vida enclausurada em condomínios nos afasta dos lindos acasos da vida, como a possibilidade do estudante de medicina poder se apaixonar pela bailarina.

Nós, que aqui moramos, devemos ser devotos de lugares como o Parque da Independência, que tem o poder de nos fazer conectar com algo de belo dentro de nós. Um lugar onde a beleza dos mais imprevisíveis encontros é possível.


Museu do Ipiranga
Parque da Independência - Ipiranga